Pedra da Gávea – O desafio do Gigante da Guanabara

18 08 2007

pedra-da-gavea.jpg

Muita das vezes a beleza e a tragicidade coexistem de formas subliminares uma á outra. O verde descortinar de uma floresta densa, íngrime e feroz desenha de forma sensual a beleza viva e mortal de uma paisagem arrebatadora e incrivelmente perfeita em seus contornos. Um lugar em que seus pensamentos angustiantes e emocionantes se intercalam, a cada passo floresta a dentro, pedra a cima. Um lugar onde um gigante toma forma, onde um imperador sempre vigia. Um lugar onde, algumas vezes, seus instintos de sobrevivência são exigidos, onde a sua alma grita de medo e de prazer, ao deleite de seus olhos, mirando o azul eterno do mar, os verdes picos e as brancas praias tão perto, tão longe.

Esse lugar, que por um dia visitei, pôs-me á prova de medos e aflições que jamais experimentara em outra ocasião. Um corpo, comandado por dois pensamentos distintos, regidos, em comum, por uma única necessidade primária: em quaisquer dos casos, a sobrevivência. A beleza do cenário era inigualável. A vontade de prosseguir só encontrava com força equivalente, o medo de errar, de pisar em falso, de ficar, de ser engolido pelo abismo verde. Chegar nessas paragens me exigiu forças jamais usadas por mim antes, num caminho verdemente monótono, puro, íngrime, fechado. Não fora em todo o trajeto que os registros de um momento surreal se deram. Fora somente em um único lugar, dentro daquela imensidão. Um lugar há muito envolto em mistérios, incertezas, misticismos. Um lugar onde eternamente um gigante imperador vigia, atento, de olhos sempre abertos á controlar qualquer visitante indesejado. Um monstro. Belo e terrível. Uma pedra. A maior do mundo, que do alto de suas centenas de metros, mergulha ao mar e esconde pra sempre seus segredos no azul do Atlântico. Seus segredos poderiam nos dizer se há muito ela foi um templo fenício, ou um sarcófago egípcio. Para nós, hoje, ela é apenas a hipnótica Pedra da Gávea.

Foi num dia de inverno que o nosso encontro se deu. Sim, o inverno carioca. Mundialmente conhecido por sua generosidade para com os habitantes desse balneário que abriga dois monumentos intrigantes de civilizações esquecidas, ou que jamais sequer tivemos conhecimento. O gigante, que se coloca “deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e á luz do céu profundo”, tem sua mente eternamente descansada naquele lugar. Seu corpo, visto do Atlântico, se desenha e toma forma na imensidão da floresta negra, perfeitamente colocado sobre as terras de uma cidade que aprendeu a admirá-lo. E era lá, naquele monumento, que se daria o meu encontro com sensações jamais experimentadas antes.

Chegar lá exige do visitante um ingresso pago com o corpo, seu bem-maior: ninguém chega até ele deliberadamente sem um mínimo esforço. E jamais chegará com o mínimo de esforço… somente com o mínimo não se chega nem á frente do Rosto do Imperador. Aquele que desbravar firmemente os desafios da floresta, ainda encontrará um desafio que o colocará diante dos seus medos, de suas emoções, de sua razão. Haverá, realmente, algum motivo são que o faça subir de peito á pedra numa escalada em que sua vida está exposta ao intempéries de uma montanha, num paredão há setescentos metros de altura, com o abismo verde que se lança sob seus pés e que, sequer, chega ao nível do mar, lhe deixando em queda livre de centenas de metros rumo á floresta ainda no alto? O poder que aquele lugar exerce lhe dirá o que está preparado para você, assim que seus pés tocarem o mínimo platô de terra á beira do precipício, ou quando seu coração disparado sentir o calor da pedra no seu peito, numa subida rumo ao paraíso.

Neste momento, suas emoções o farão se apegar às suas crenças, às únicas forças que te fariam lutar pela vida diante do perigo iminente, de uma beleza cruelmente arrebatadora. Suas decisões, nesse momento, te levarão em frente, ao limiar da beleza entre o céu e a terra. O véu azul cobrirá a sua cabeça, tal como a do Imperador, de paz, leveza, surrealismo. Ainda assim, os ventos traiçoeiros podem te fazer dar um mergulho á natureza, em queda-livre rumo ao eterno destino de todo ser na terra. Mas, enquanto seus olhos estiverem contemplando o lugar que outras civilizações já haviam descoberto, nada te levará a qualquer lugar onde você não queira estar. Sua mente estará entregue àquele lugar. Você estará entregue á ele. E aí sim, o seu esforço terá tido uma recompensa.

A beleza das praias desenhadas, da praia ao sul que se lança preguiçosamente por quilômetros rumo á outra montanha que faz o seu mergulho junto ao mar. A última curva desenhada por aqueles maciços de pedra e mata. Abaixo, a beleza ligeira de uma praia que está cercada por essa fortificação natural em que aos seus pés lhes são dado o privilégio de tocar, e, na outra extremidade, a curva sensual característica dessa terra, brilhantemente esculpida entre o mar e a montanha do gigante. A água se faz presente para qualquer que seja o lado que você olhe. Como uma moldura monumentalmente prepara para o deleite de seus apreciadores, a sensualidade do maciço oposto á pedra do rosto do Imperador, dá espaço á uma miragem naturalmente construida por obra dessas mãos poderosas. Uma lagoa elegantemente desenhada se emoldura entre os grandes blocos de pedra. E, num último desenho do corpo do gigante, ao norte se avista o morro que ao meio dia uma Fênix se apluma ao sol, anunciando o ressurgimento das cinzas de uma outra era. A beleza do contorno dessa montanha descreve em linhas graciosas, uma esfinge gigantesca, com seus pés dianteiros eternamente banhados por uma baía de curvas que se lança ao mar do Atlântico diante da face da montanha que abriga o segredo da Fênix, sutilmente revelado somente quando o sol alcança o seu zênite. Ali é o mergulho final do gigante, que, com suas mãos sobre o peito, descansa em berço esplêndido.

É chegado o momento de retornar ao nível do mar, à cidade que abriga essa obra geológica. O gigante ainda terá uma última tarefa reservada aos desbravadores de suas terras: a viagem de volta. Uma parte do trajeto, que no caminho floresta acima, o conquistador das verdes terras fez de peito aberto e mãos na pedra, parte essa chamada hoje de carrasqueira, terá de ser refeita, agora de costas pra pedra. O corajoso desbravador terá diante dos seus olhos a beleza da floresta negra, as agradáveis formas dos morros menores, as silhuetas dos espelhos d’água dessa região. Essa será a paisagem que, vertiginosamente, terá de ser admirada, até que o grande desafio imposto pelo imperador tenha sido cumprido.

O resto do trajeto é apenas uma despedida. Se a sua saída for permitida pelo eterno dono daquelas terras, a sua única tarefa, então, será a de manter-se firme sobre suas articulações, num trajeto mata adentro de pouco mais de uma hora. Ao chegar ao chão da cidade, e contemplar a imensidão desse gigante diante da pequenês de seus deslumbrados conquistadores, a sensação será única pra cada um. Toda a beleza descortinada diante de seus olhos do alto da grande pedra, só terá grande influência depois que o seu corpo devidamente entender que você sobreviveu. Que a sua existência no planeta desse gigante misterioso lhe permitiu que seus olhos deslumbrassem o momento. Se a sua experiência não se repetir, terá valido, mesmo assim, por gerações e gerações.

Thyago Miranda

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10 responses

21 08 2007
Marcus Roberto

Excelente texto, Thyagão… excelente, cara!!!! Meus parabéns.

21 08 2007
Thyago Miranda

Meu primeiro fidibeq pra esse texto! Brigadão Marcus! Depois de pronto esse texto me deu orgulho!

Orgulho e saudades. Aquela experiência foi fantástica. Só poderá ser superada, no mesmo lugar, com uma visita de virar a noite na pedra: entardecer, nascer da lua cheia, alvorada, e céu azul.

Acho que vou consultar o calendário pra marcar alguma visita em época de lua cheia…😀

13 12 2008
gabriella

e exelente eu ja escalei la e uma maravilha no olho do gigante e muito lindo da para ver tudo la de cima

24 01 2009
barbara

oi que sabe os misterios do olho do gigante porque vejo os mutantes e o valente quer saber qual e o misterio da pedra da gavea o olho de gigante

24 01 2009
barbara

quero saber qual e o asegredo do olho do gigante

24 01 2009
daniel

ja eslei o olho do jigante la e muito lindo la em sima

24 01 2009
daniel

quantos anos vc tem gabriela

28 07 2009
VLADMIR

THIAGO VC ESCREVEU ESTE TEXTO EM 2007 ?
EU Li AGORA ,A PEDRA DA GAVEA É SEM DUVIDA A MELHOR ESCALADA DA MINHA VIDA , POR TUDO QUE ELA REPRESENTA E POR TUDO QUE ELA ME FAZ SENTIR .
UMA JORNADA INESQUECIVEL , ESTAREI LÁ ATÉ O FIM DA MINHA VIDA .
SEU TEXTO TAMBEM SE ETERNIZARÁ JUNTO COM O GIGANTE .
PARABÉNS IRMÃO.

VLADMIR

28 07 2009
Thyago Miranda

Pois é rapaz, já tem um tempo que eu escrevi. Foi bom voltar lá e ler o texto. Eu escrevi em 2007 – e já tinham se passado 3 anos até aquele momento que eu realmete tinha feito a trilha. E mesmo agora, 5 anos depois, o sentimento é o mesmo.

Você fez a trilha mais de uma vez Vladmir? Quero voltar, mas sei pelo que passei e sei como eu devo estar mais preparado pra quando voltar.

Me conte suas história rapaz!

Abraços!!

10 08 2009
VLADMIR

EU FAÇO A PEDRA DA GÁVEA TIPO DE DOIS EM DOIS MESES , SE PUDESSE TODO DOMINGO EU ESTARIA LÁ.
CORAGEM IRMÃO, LÁ É UM LOCAL ONDE ENFRENTAMOS TODOS OS NOSSOS FANTASMAS !
NÃO PERCEBEU ?
O GIGANTE ERA VOCÊ !
UM GRANDE ABRAÇO !
VLADMIR

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